Contraexemplo é demonstração

Muitos acreditam que uma demonstração precisa de páginas, lemas, definições e corolários.  Mas a matemática também admite provas curtíssimas, definitivas e irrefutáveis.  O contraexemplo é uma delas.


Um contraexemplo demonstra que uma afirmação universal é falsa — e isso é uma demonstração plena.  Não é só um exemplo. É a refutação lógica completa de uma proposição do tipo para todo. Veja:


Todo número primo é ímpar

Afirmação falsa: Todo número primo é ímpar.  

Demonstração por contraexemplo: O número 2 é primo e par.  

Logo, a afirmação é falsa.  

CQD.

Zero é ímpar

Afirmação falsa: Zero é ímpar.  

Demonstração por contraexemplo: 0 = 2·0, logo 0 é par.  

Portanto, a afirmação é falsa.  

CQD.


Em algum anel das matrizes reais, não existem divisores de zero não nulos  

Afirmação falsa: Em algum anel das matrizes reais, não existem divisores de zero não nulos.  

Demonstração por contraexemplo:  

Sejam  


 

A e B são não nulas e multiplicadas resultam em AB que é uma matriz nula, logo A e B são divisores de zero e, portanto, existem divisores de zero não nulos. A afirmação é falsa.  

CQD.


Encerrando a discussão

Essas não são quase provas. São provas completas.  

A lógica é clara: uma afirmação da forma para todo x, P(x) é falsa se e somente se existir um x tal que não P(x).  

Exibir esse x é demonstrar a falsidade.

Demonstrações não precisam ser longas.  

Precisam ser decisivas.  

E o contraexemplo, muitas vezes, é a forma mais econômica, elegante e poderosa de dizer:  Isso não é verdade.

CQD. 

A autora

Daniela Mendes Vieira da Silva possui doutorado e pós doutorado pelo programa de pós graduação em ensino de Matemática da UFRJ, é professora adjunta do departamento de Matemática da FFP/UERJ, coordenadora geral do projeto de extensão LEM FFP UERJ ITINERANTE e do projeto de pesquisa e iniciação científica, fomentado pela FAPERJ e pela UERJ, Matemática e Física na mala. É também líder do grupo de pesquisa em aprendizagem e ensino de Matemática da FFP-UERJ (GPAEM-FFP), foi coordenadora do Programa de Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (Profmat) na FFP/UERJ e é diretora da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (Regional Rio de Janeiro), eleita para o triênio 2025-2027. Atua também como procientista UERJ.