Três formas clássicas e uma variação elegante de demonstrar que a soma de dois números ímpares é par.

Neste post vou abordar três formas clássicas e uma variação elegante de demonstrar que a soma de dois números ímpares é par. É importante fazer diferentes tipos de prova para compreender as diferentes maneiras pelas quais construímos a Matemática. Vamos à elas.

Google imagens


Prova direta  

Teorema: "Sejam x e y números inteiros. Sabemos que x e y são ímpares quando podem ser escritos como x = 2a + 1 e y = 2b + 1, com a e b inteiros. Nesse caso, a soma x + y é sempre par.


Prova:

Escreva x = 2a + 1 e y = 2b + 1, onde a e b são inteiros. Então  


x + y = 2a + 1 + 2b + 1 = 2(a + b + 1),  


que é um múltiplo de 2. Logo, x + y é par. 


CQD.


Prova por contrapositiva  

Teorema: "Sejam x e y números inteiros. Sabemos que x e y são ímpares quando podem ser escritos como x = 2a + 1 e y = 2b + 1, com a e b inteiros. Nesse caso, a soma x + y é sempre par.


Prova:

A contrapositiva da frase “se x e y são ímpares, então x + y é par” é:  


se x + y não é par (ou seja, é ímpar), então pelo menos um entre x ou y não é ímpar (ou seja, é par).  


Suponha que x + y seja ímpar. Se ambos x e y fossem ímpares, sua soma seria par, como mostrado na prova direta — o que contradiz a suposição. Portanto, ao menos um deles é par, o que prova a contrapositiva e, com ela, a afirmação original.


CQD.


Prova por absurdo  

Teorema: "Sejam x e y números inteiros. Sabemos que x e y são ímpares quando podem ser escritos como x = 2a + 1 e y = 2b + 1, com a e b inteiros. Nesse caso, a soma x + y é sempre par.


Prova:

Suponha que x e y sejam ímpares, mas que x + y seja ímpar. Então existem inteiros a, b e c tais que  


x = 2a + 1, y = 2b + 1 e x + y = 2c + 1.  


Mas então  


2a + 1 + 2b + 1 = 2c + 1, ou seja, 2(a + b + 1) = 2c + 1.  


O lado esquerdo é par; o direito é ímpar. Isso significaria que um mesmo número inteiro é par e ímpar ao mesmo tempo, o que é impossível. A suposição inicial é falsa. Logo, a soma é par.


CQD.


Dupla implicação estrutural


Não é verdade que x + y é par se e somente se x e y são ímpares, pois dois números pares também somam um par.


Mas vale a seguinte equivalência precisa:


x + y é ímpar se e somente se exatamente um entre x e y é ímpar.


Adendo: paridade mista é o nome dado à situação em que, entre dois inteiros, um é par e o outro é ímpar, ou seja, exatamente um deles é ímpar.


A prova dessa bicondicional se divide em duas partes:


Ida: Se x + y é ímpar, então exatamente um entre x e y é ímpar.  

(Ida = da soma ímpar → à paridade mista)


Prova:  


Suponha que x + y seja ímpar. As únicas possibilidades para a paridade de x e y são: ambos pares, ambos ímpares ou um de cada.  


Se ambos fossem pares, a soma seria par. A esta afirmação, vamos chamar de Lema (Lema é um teorema auxiliar).


Lema: A soma de dois números pares é par.  

Prova: Tome f e g pares e inteiros, f=2z e g=2w, somando-os, temos: 2z+2w, colocando 2 em evidência temos 2(z+w), z+w é um inteiro, que chamaremos u, reescrevendo, temos 2u que é a forma canônica de um número par. CQD.


Se ambos fossem ímpares, a soma também seria par (como provado anteriormente).  


Como a soma é ímpar, nenhuma dessas duas situações ocorre. Logo, exatamente um é ímpar e o outro é par, ou seja, há paridade mista.


Volta: Se exatamente um entre x e y é ímpar, então x + y é ímpar.  

(Volta = da paridade mista → à soma ímpar)


Prova:  


Suponha, sem perda de generalidade, que x = 2a (par) e y = 2b + 1 (ímpar), com a, b inteiros.  


Então:  


x + y = 2a + (2b + 1) = 2(a + b) + 1,  


que é ímpar.


Como ambas as implicações foram demonstradas, a equivalência está provada.


Dela segue imediatamente que, se ambos são ímpares, a soma não pode ser ímpar — logo, é par.


CQD.

A autora

Daniela Mendes Vieira da Silva possui doutorado e pós doutorado pelo programa de pós graduação em ensino de Matemática da UFRJ, é professora adjunta do departamento de Matemática da FFP/UERJ, coordenadora geral do projeto de extensão LEM FFP UERJ ITINERANTE e do projeto de pesquisa e iniciação científica, fomentado pela FAPERJ e pela UERJ, Matemática e Física na mala. É também líder do grupo de pesquisa em aprendizagem e ensino de Matemática da FFP-UERJ (GPAEM-FFP), foi coordenadora do Programa de Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (Profmat) na FFP/UERJ e é diretora da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (Regional Rio de Janeiro), eleita para o triênio 2025-2027. Atua também como procientista UERJ.